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PODERES DO SOM

I CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE PESQUISA EM SONORIDADES

O músico e ambientalista Murray Schafer identifica no ruído, elevando-se sobre o silêncio cotidiano das comunidades, um elemento para comemorar ocasiões especiais: colheita, eventos religiosos, eventos oficiais ou não. A ruptura da tranquilidade rotineira é vista como um algo que ajuda a definir o sagrado: aquilo que é diferente do silêncio secular. Ao mesmo tempo, o pesquisador vê na crescente industrialização, desde o século XVIII, uma forma de povoar o mundo com sons cada vez mais intensos. A possibilidade de sons que não cessam ou de sons que são ouvidos sem que possamos (ou precisemos) identificar sua origem, transforma o ato de ouvir e produzir sons em uma relação de poder. A sociedade contemporânea não apenas polui o ambiente sistematicamente com uma quantidade incalculável de novos e potentes sons, mas, ao mesmo tempo, insere esses novos meios de produção sonora em cadeias de produção de sentido. Entretanto, podemos dizer que nossas atuais paisagens sonoras constituem uma questão ainda mais complexa.

Normalmente compreendido como fenômeno físico, ou seja, a transmissão de um sinal de movimento em um meio ou como vibração de um corpo que ressoa em outro, o som deve ser pensado também como uma relação social: seja na música que embala os corpos dançantes em uma festa ou naquela que toca em bares e toma as calçadas, seja no emprego de carros de som por manifestações em um protesto, ou no uso da voz por pregoeiros que anunciam seus produtos e serviços no espaço público, ou ainda nos sistemas de sonorização de salas de cinema que imergem os espectadores na diegese fílmica. Percebe-se que cada uma dessas sonoridades permite a realização de tarefas que não seriam concluídas da mesma maneira acionando-se outras matérias de expressão. Neste sentido, os sons possuem agência, têm o poder de conquistar objetivos ou de fazer os agentes que vibram em consonância com ou dissonância deles atuarem em sentidos que lhes apoiam ou contrapõem.

Sons trabalham com identidades: individuais ou de grupos; sons configuram relações de poder: entre indivíduos ou entre instituições; sons desvelam estruturas históricas de produção; sons são componentes essenciais da indústria de entretenimento; sons causam dor e morte.

A relação entre sons e poder não é nova, como bem vimos, mas adquire contornos inéditos e muito importantes na atual conjuntura política mundial. Em um momento de acirramento ideológico, em que Estado e sociedade têm protagonizado disputas muitas vezes violentas, o som tem se mostrado instrumento eficiente para controle e para infligir danos em pessoas ou objetos.

Em sua dualidade de força e texto, como afirma o antropólogo Martin Daughtry, os sons colonizam os espaços – inclusive o do corpo. O autor pesquisa as sonoridades da Guerra do Iraque para compreender como o som está envolvido em dinâmicas violentas de poder que se distribuem assimetricamente em todas as direções. Assim, destrincha uma série de práticas, protocolos e artefatos tecnológicos que moldam as escutas e ações cotidianas de soldados e da população civil envolvidos no conflito.

Neste sentido, o autor analisa como aparelhos criados visando a comunicação a longa distância como o LRAD (long range acoustic device) têm sido comumente utilizados desde 2006 para dispersão de multidões. O LRAD produz um som acima do limite do suportável pela audição humana, obrigando manifestantes a se retirarem do local. O caso mais icônico foi o dos protestos ocorridos durante o encontro da cúpula do G20 em Pittsburgh, nos EUA. O artefato tecnológico também foi empregado pelo exército americano no Iraque pós Operation Iraqi Freedom para repassar mensagens que tinham não só uma função informativa, mas também objetivavam impor domínio sobre o território urbano e minar a moral de grupos armados de resistência à ocupação norte-americana (DAUGHTRY, 2015).  No Rio de Janeiro, pouco antes da realização da final da Copa das Confederações, em 2013, a Polícia Militar apresentava à imprensa um canhão sônico para afastar torcedores mais exaltados. O nome do aparelho: Inferno.

Em episódio diplomático controverso, ocorrido recentemente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos denunciou o que se configuraria como um “ataque acústico” à sua embaixada em Havana. Diplomatas americanos teriam começado a sentir dores de cabeça, náuseas, perda de audição e desequilíbrio devido, provavelmente, a emissões ultrassônicas de dispositivos de escuta escondidos em suas residências ou na própria embaixada.

Esses exemplos revelam o caráter abrangente do som enquanto objeto de pesquisa. Há algumas décadas o campo de Estudos do Som vem se desenvolvendo através de uma perspectiva multidisciplinar, envolvendo áreas diversas como Tecnologias, Audiovisual, Música, Antropologia, História, Filosofia, Comunicação, Economia, etc. Mais do que um objeto de pesquisa, trabalhos como os citados aqui demonstram que o som deve ser pensado como instrumento de pesquisa: como método de investigação. Entender os fenômenos contemporâneos através dos diferentes modelos de escuta e das diferentes relações de poder, econômicas, culturais, estéticas etc. que se constituem a partir daí é repensar a nossa própria concepção de mundo. Fugir da costumeira perspectiva visual através da qual vários campos de conhecimento formulam suas hipóteses é também permitir que diferentes nuances venham à tona, é questionar a experiência cotidiana e buscar novas maneiras de se posicionar.

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